segunda-feira, 13 de junho de 2016

E se fosse consigo? Violência doméstica


Na semana passada o programa da Sic era sobre a violência doméstica. Resumidamente, colocaram actores a simular uma discussão agressiva. O homem insultava-a, humilhava, puxava-a, empurrava-a, dizia-lhe que ela não podia sair de casa porque tinha de fazer o que ele mandava.

Fiquei chocada com o facto de este ter sido dos programas em que menos pessoas agiram. O verdadeiro "entre marido e mulher não se mete a colher". As pessoas que intervieram, eram pessoas que tinham uma mãe (na maioria dos casos) que tinha sofrido violência por parte do marido. Penso que foi esse o factor que gerou a empatia pela situação criada para as filmagens.

A maioria ignorava. Olhava, ouvia, mas continuava caminho. Uma situação absolutamente caricata (mas sem ter graça) foi a de um senhor mais velho: durante muito tempo, a equipa de televisão filmou a reacção dele. O casal discutia numa esplanada, ele ouvia, mostrava-se enojado e até emocionado. Depois a Conceição Lino foi ter com ele e ele disse que não ouviu nada. "Mas não ouviu?", perguntou ela, insistindo. "Não. Nada. Não ouvi. Percebi que estava a discutir, mas não sei de nada". 

E é sempre assim. Sabemos, ouvimos, mas fingimos que somos cegos, surdos e mudos. Não nos metemos. Inventamos todo o tipo de desculpas. "Pode ter sido só uma vez. Posso não ter ouvido bem. Ela/ele pode ter feito alguma coisa para merecer. O agressor podia estar mesmo incomodado com algo. Podia acabar por sobrar para mim". E é assim, com esta passividade, que os agressores vão levando a vida. 

Outra situação curiosa foi o facto de as pessoas só agirem "em grupo". Estavam todos calmos, sem agir... mas bastava um agir, para virem logo mais dois ou três gritar e resmungar. Isolados, nada faziam. Em grupo, já faziam e aconteciam. Bom, mais vale assim do que não fazerem nada... no entanto, não deixa de ser curioso que tivesse de haver um primeiro corajoso a espoletar a coragem dos outros. 

28 comentários:

  1. Concordo. Essas pessoas deviam ter vergonha. E se fosse a filha deles??? Que país atrasado.

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  2. Percebo o "choque" mas.. E se fossemos nós? Reagiríamos?

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    1. Eu ficava cheia de medo e não ia saber o que fazer. Tenho a certeza... tudo o que sejam atitudes mais violentas eu fico cagadinha de medo... não me ia conseguir meter, mas provavelmente, ligaria à polícia ou a alguém para pedir ajuda... :(

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    2. Não posso garantir, mas creio que me colocaria a uns 3 metros de distância, a falar bem alto, para que deixasse a senhora em paz. E chamava a polícia se fosse mesmo caso grave!

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  3. Infelizmente estamos numa sociedade de que ''entre marido e mulher não se mete a colher'' reina e estes casos continuam porque ninguém se quer meter! E se fosse a nossa filha? Não gostaríamos! Mas é com a filha dos outros!

    beijinhoss

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  4. Acho que isso são questões muito complexas... Eu, sinceramente, não sei como agiria se estivesse sozinha, não sei mesmo. Já existiram situações em que agi estando sozinha, mas não foram situações de violência doméstica e só agi porque não havia mesmo lá mais ninguém a fazer nada...
    Gosto de acreditar que faria alguma coisa (eu não vi o programa não sei bem que situação foi encenada, se havia violência física explicita ou não) mas não posso afirmar que sim, que faria. O que me espanta muito é, nas Redes Sociais ver 99% das pessoas a revoltarem-se contra o ato de nada fazer e depois, na realidade, nem 10% se chegam à frente. :P Ser humano tem destas coisas.

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  5. Muita gente ás vezes mete a colher e depois lixam-se, porque a vitima defende o agressor ou retira a queixa.
    Compreendo perfeitamente quem só se meta se houver mais gente a juntar-se... assim não é só um a faze-lo e a situação não fica 2 contra 1 como muitas vezes acontece.

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    1. É crime público, qualquer um pode denunciar, mesmo que a vítima negue. Temos todos telemóveis, é filmar. :)

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    2. Ia jurar que filmar mesmo nessas situações é crime e nem é aceite como prova. É o que vai acontecer no caso do casal a fazer sexo ao lado da menor. Aquelas imagens servem para revolta nas redes sociais mas em tribunal valem zero e podem trazer consequências para quem filma.

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    3. Tem razão, Anónimo.

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  6. Se a própria polícia nada faz. É tudo muito lindo o que se fala. Mas uma queixa na polícia por violência doméstica é igual a se ficar em cada.

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    1. Nina, como disse acima, "É crime público, qualquer um pode denunciar, mesmo que a vítima negue. Temos todos telemóveis, é filmar. :)".

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  7. Devo ser só eu que acho essas simulações ridículas!
    Pior ainda, é alguém tirar conclusões dai... "Porque ninguém faz nada, porque só agem em grupo..." Eu sou a primeira a dizer que não faria nada mediante uma situação destas! Saberia lá com quem me estava a meter... Quem tem coragem de fazer uma cena destas em plena rua, tem coragem para muito pior de certeza... Prezo muito a minha integridade física! Chamaria a polícia em caso de necessidade, como é óbvio, daria apoio a(o) agredida(o), naturalmente, se esta(e) ficasse sozinho mas meter-me no meio de confusões?! Acho a maior estupidez insultar ou opinar sobre quem "não faz nada" em circunstâncias destas. É tão fácil falar... tão fácil parecermos puritanos e bons samaritanos quando falamos de coisas hipotéticas...

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    1. Obrigada Ritita. Estava a ver que ninguém fazia um comentário sensato. Uma coisa é ajudar uma amiga, uma familiar, agora uma pessoa que não conheço! Chamava a polícia e ia à minha vida. Vou agora por em risco a minha integridade física por alguém que não conheço e que se calhar no fim ainda protege e defende o agressor (que é o que mais se vê, infelizmente)

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    2. Faço destas palavras minhas.
      Quando estava a ver o programa comentei isso com o meu namorado, disse "Eu também passaria por alguém que passou e não fez nada, porque eu não me meteria entre os dois (tinha medo do agressor), ia mas era ter com o polícia mais próximo denunciar a situação e pedir auxílio".

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    3. Além disso o que foi demonstrado em várias partes era somente uma discussão típica de casal. Houve momentos de violência psicológica e até ameaças mas era bem mais frequente parecer uma discussão normal.

      Eu já assisti a uma situação de violência bem mais intensa à minha frente. Que envolveu trocas de palavras bem sérias, ameaças, pontapés, etc e tal como foi dito não me fui lá meter no meio.
      Telefonei foi para a policia, relatei o sitio onde estava, o que estava a ver, as matriculas dos carros de ambos. Mas meter-me lá? Está bem abelha...

      Dependendo das simulações podem ser ridiculas ou não, acima de tudo acho que é bom promover-se a responsabilidade civil.
      Mas em relação ao facto de só agirem depois de um ou outro o fazer: está mais que comprovado que as pessoas têm muito mais tendencia a ajudar se for só 1 pessoa a assistir do que muitas, com muitas todos pensam "alguém há-de ajudar" e a responsabilidade passa para os outros.

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    4. Violência doméstica já é crime público. Pode-se filmar. Pode-se denunciar. Ninguém aconselha a que se metam no meio... mas podem ficar a uns dois ou três metros de segurança e gritar, falar, intervir. Podem chamar outra pessoa. Podem chamar a polícia. Ignorar é que não se pode fazer. :)

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    5. 2 ou 3 metros de segurança? Nao lês jornais? Quantos homens atacam as companheiras e quem as ajuda com armas de fogo? Achas que vão ser 2 metros que te safam se deres de caras com um homem assim? Se não o conheces não sabes do que ele é capaz. De qualquer forma ninguém diz que ia ignorar, o que estamos aqui a dizer é que chamávamos a policia, é o correto.
      Eu já vivi ao lado de uma família complicada, chamei a policia algumas vezes, mas ir lá? Claro que não. Era só o que me faltava, desenhar (a mim e aos meus) um alvo na testa para ajudar uma mulher, que no fim, andava de mão dada na rua com o agressor. Ele chegou a ser detido, mas voltava para os braços abertos da mulher. A salientar que a porrada era geral, marido e mulher, pais e filhos, todos batiam, e se no principio eu chamava a policia a achar que estava a ajudar alguém, no fim já só chamava para que parasse a confusão e eu pudesse dormir.
      Há historias de vida muito complicadas, e nos não sabemos no que nos metemos assim, a assistir a uns segundos de discussão. Chamar a policia, é sempre o mais sensato.

      AnaC

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    6. Se uma pessoa quiser atacar o interveniente, há-de valer imenso 2 ou 3 metros de "segurança".

      PS: os vídeos acabam por, quase sempre, não poder ser utilizados como provas em tribunal.

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    7. Exato. Concordo plenamente. Sejamos honestos, não é fácil metermo-nos numa situação assim. Não digo que não o faria mas, honestamente, também não posso dizer que chegaria ali e intervinha logo. Não sei.

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  8. Já ajudei uma pessoa que estava nesta situação, e o companheiro bateu-me. Por isso, não, não me meteria. Chamava a polícia e desandava. As pessoas que têm vidas pacatas não têm noção do grau de violência a que alguns chegam.

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  9. Sónia e tu farias diferente? Não sabes, não sabemos...
    Não é tão simples assim...

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    1. Não sei o que faria mas sei o que penso. :)

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    2. Mas penso que neste caso quase todos nós somos contra a violência doméstica e quase todos nós condenaremos mentalmente uma discussão violenta em praça pública. Ou seja todos nós sabemos o que pensamos. Provavelmente todas aquelas pessoas que nada fizeram no vídeo condenam a violência doméstica e um dia disseram a alguém "Eu sei o que penso sobre isto mas não sei o que faria". No fundo, eu, tu e essas pessoas somos todas iguais. :) Acho que dependerá muito da situação: eu não posso dizer que de certeza que vou sempre lá intervir cada vez que vir uma cena destas nem posso afirmar que nunca irei. Dependerá sempre da situação, por muito que eu saiba o que penso.

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  10. Se fosse um caso como aquele, em que a vítima pouco faz, não pede socorro e ainda diz, "deixe estar" tenho a certeza de que não faria nada.
    O que não faltam por aí são casos em que elas ainda os defendem.

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  11. Tinha uma vizinha que morava embaixo que sempre apanhava e meu pai acudia! Só se separaram porque ele arrumou uma mais nova!!

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  12. Acho muito triste a atitude do "nao é comigo, nao vi nem ouvi, nao me meto". Sem testemunhas, a justica nao pode operar. Ah e crime público e tal, mas a verdade é que em todos os casos de violencia domestica de que já tomei conhecimento (no mesmo bairro uma meia dúzia, a policia nao intervém, os vizinhos disseram que nao viram nada - ou seja mentem em tribunal pois é ve-los com a luz acesa a espreitar atrás das cortinas-). Uma vez numa saída à noite presenciei uma situacao de ameacas entre um jovem casal em que tive a sensacao que a rapariga estava em perigo de ser agredida. Nao parei para pensar, para mim nem se coloca em causa, intervi logo, confrontei-o e se ele se virasse contra mim ou contra ela levava também. Sao posturas e para mim só existe uma das duas: ou se está do lado da vítima ou do agressor. E podem ter a certeza: quem compactua com a violencia só irá aprender quando tiver algum dos seus a passar por isso.

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