Tenho asma. Pronto, está dito.

Após 20 anos de existência, quarta-feira deu-me um ataquezinho de asma que me enviou para o hospital. Depois de quase 24 horas a respirar mal como o caraças, lá fui eu ter com o senhor doutor.

Ir a um hospital é uma experiência macabra. Cheguei lá, quase a ter um xelique por não poder respirar, fiz o meu ar mais sofrido e puseram-me uma pulseirinha laranja. Reencaminhada para a sala de espera, alapei-me, já a pensar que ia passar horas naquele martírio. Dez minutos depois lá fui chamada pelo senhor doutor. O ar sofrido deu resultado.

Depois metem-me numa sala cheia de velhotas com agulhas espetadas nos braços e máscaras de oxigénio. Nice. O que vale é que o enfermeiro que tratou de mim era amoroso e muito atencioso com todos os doentes. Daquelas pessoas que realmente têm vocação para lidar com pessoas. Em termos de profissionais de saúde, fiquei agradavelmente satisfeita.

Fui alvo de várias acusações de ser uma rapariga resmungona. Ai que mentira! O senhor doutor (not bad at all...) disse-me que eu fui a doente mais resmungona que ele já conheceu. Não admira. Ao enfiarem-me um catéter no meu bracinho, comecei a choramingar. E depois de me dizerem que me queriam espetar uma agulha no pulso comecei a a resmungar. De qualquer forma, quatro nebulizações de oxigénio, uma agulha espetada no braço durante horas e uns comprimidos depois, estou como nova. Ou quase.

Mas não é do meu drama que vou escrever. Sou uma gaja cheia de sorte, apesar de me queixar da minha triste sina muitas vezes. Haja pachorra para me aturar!

Ora bem, apesar da simpatia do pessoal aquilo metia dó. Havia lá uma senhora que estava lá sentada desde as oito da manhã, e fartava-se de se queixar de que "não estava ali a fazer nada" porque ninguém olhava para ela.A mulher estava visivelmente transtornada.

Outra mulher estava lá a dizer que tinha de levar choques no coração, e que estava com medo daquilo. Deve ser horrível saber que vais para uma intervenção da qual podes não sair com vida.

Mas o que mais me chocou foi uma velhota que esteve lá durante a tarde. "Criei três sobrinhas e agora vejo-me sozinha. Não tenho ninguém, vivo sozinha". Mas as pessoas são pessoas... ou são trapos que se deitam fora quando ficam velhos? Como é possível descartar assim os nossos pais, tios e avós?

Pessoas que nos criam, que nos alimentam, que nos dão educação, atirados para a solidão quando ficam velhos.

Que esperar de um povo que recambia os seus velhos para o hospital, para poder ir passar férias?

Comentários

  1. Pobre velhota (que não é única, infelizmente). As melhoras para ti!

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  2. É uma triste realidade...
    Ainda bem que estás melhor! ;)
    Big Kisses

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  3. Olha, olha... a tua descrição do teu estado e das lagrimitas com a agulha não me soam estranhas de todo... será que Miguel e Sanxeri se cruzaram no hospital?? Mistério...
    Mas crise de asma é uma bosta!!!
    Beijo!!

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  4. Miguelzito senhor enfermeiro, não me pareça que o senhor seja o rapazito que me atendeu. :P E julgo que o senhor não é do Porto.

    Raparigas choronas há em todo o lado. :D

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  5. Também tenho asma. It (really) sucks. Adivinha lá onde passei a noite de 25 de Dezembro de 2008? Pois, no Hospital a levar oxigénio.

    Do outro assunto: assusta-me existirem pessoas assim. Fico revoltada. Com uma rauva enorme. E tristeza por quem tratou, amou, cuidou, criou, protegeu e agora se vê sozinho e abandonado. Não é falta de reconhecimento. Não é crueldade. É tudo isso multiplicado e elevado ao cubo. E pior. Revolta-me MESMO. E entristece-me. Não ha direito.

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  6. Apanhado em que sentido meu caro? Nao vi lá nenhum enfermeiro skinhead. lol :P

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  7. Ai o Portugalinho e o seu SNSzinho...bahhh as horas que eu já lá perdi...valeu-me para o IRS lol:) quanto ao resto lá está, ai Portugalinho... as melhoras!

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  8. Também detesto agulhas, dá-me logo uma coisinha má...
    Quanto ao velhos encostados a um canto do hospital, pra outros irem de férias...infelizmente, acontece mais do que seria desejável. E lembro-me do ditado:"Filho és, pai será; assim como o fizeres, assim o acharás".

    Beijoca!

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  9. Então não são as gaijas as tais muito corajosas e tal e os gaijos é que são uns "maricas", que não podem com agulhas...
    É tudo uma questão de hábito. Veias que rebentam, de tanto "uso", cateteres que só "entram" à quinta tentativa, tubos com o diâmetro de um dedo a sair por entre os ossos das costelas, tirar sangue para análise todas as manhãs (ou quase), injecções diárias na barriga, eram coisas inimagináveis para quem ficava "verde" só de ver a agulha do dentista.
    Depois, umas enfermeirinhas espanholas, até dão vontade de voltar (salvo seja eheheh).
    Mas a falta de ar é uma sensação terrível. Só por isso era capaz de te oferecer o ombro para chorares.
    Dos velhotes nem me fales, que eu já estive mais longe e só de pensar na tristeza que deve ser ficar velho e sozinho, dá-me vontade de morrer já.
    É o destino que este modelo de sociedade nos reserva…
    Desejo-te as melhoras e cuidado com as saídas ao campo. Anda muito pólen no ar. E o enfermeiro jeitoso não está de serviço todos os dias eheheh.

    Beijinhos

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  10. sou asmatica e sofro muito com isso, espero que vc esteja melhor.

    bjosss...

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  11. A velhice é a perda da dignidade... o ficar-se sem as propriedades mentais e físicas que os honraram durante a vida. É querer e não poder! Essa a primeira frustração!

    Depois as famílias que os desprezam (muitas vezes com violência), a sociedade que não valoriza a sabedoria e que continua a apostar na cultura da juventude... (contra mim falo pois sou ainda imberbe :D)

    Beijos

    P.S. É espantoso como na Polónia, só para te dar um exemplo, é exactamente o contrário.

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  12. Infelizmente é assim mesmo. A minha mãe trabalhou num café em frente a uma casa de repouso, então os velhinhos passavam lá o dia e era com cada história que metia dó. Chegamos a convidar para a ceia de Natal uma velhinha que nem tinha com quem passar essa noite (e ela choramingava pelo bacalhau). Faleceu meses depois e nós fomos as únicas pessoas presentes no funeral. Ainda hoje engulo em seco.
    Beijinhos

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  13. Sim, para mim isso é que é doentio. São pessoas, precisam de amor, precisam de cuidados pois esta é a fase da vida deles em que mais precisam...
    É indecente!

    **

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  14. Espero que esteja já tudo bem e que aí o Sr Enfermeiro tenha tratado bem de ti ;-)

    bjs com charme

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  15. antes de mais, põe-te boa rapidamente...

    é pena que toda a sabedoria dos "trapos" seja desperdiçada em troca de umas horas na praia!
    é o povo que temos, na hora de retribuir, faz-se esquecido!

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  16. Infelizmente também costumo passar por isso, também tenho asma e já fui parar algumas vezes ao hospital ainda hoje estive um pouco em baixo…enfim
    Mas tens razão em relação ao nossos idosos mas esse tipo de situações acontece no ceio de famílias mal estruturadas na minha é impensável isso acontecer respeitamos muito os mais velhos nunca deixaria um ente querido num hospital para ir passar ferias a qualquer lado…só de pensar que alguém é capaz de o fazer fico irritado…

    Um beijo e as melhoras

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  17. Olá. Conheço bem demais esse ambiente. Sei que, por exemplo, muitas das pessoas que estão num hospital mentem descaradamente a respeito do tempo a que estão à espera...
    Mas a triste realidade é que 30% dos serviços (de internamento, não tanto os de urgência) estão por vezes ocupados com pessoas cujos familiares não querem ou até não podem levar para casa. Custa perceber quando é pela primeira razão... custa porque eles apercebem-se e a dor dessa rejeição, e no contexto de vulnerabilidade da doença, deve ser desoladora.
    Não percebo como as pessoas são capazes de ser tão feias e mesquinhas.

    As melhoras.

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